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Tudo o que você precisa saber sobre a Dengue

Livia de Almeida e Alessandra Medina

O verão no Rio, além da perspectiva de dias ensolarados na praia, traz desde 1986 uma preocupação permanente aos cariocas – que o calor e as chuvas da estação sirvam à multiplicação dos mosquitos Aedes aegypti e ao aparecimento de uma nova onda de dengue. Este é um daqueles anos em que o temor se confirmou, materializando-se em 20 269 casos registrados até a última quarta-feira. O que mais assusta desta vez é a gravidade da doença, que levou à morte 29 pessoas, entre elas dezoito crianças de 1 a 11 anos. Por enquanto, a Secretaria Municipal de Saúde não reconhece a existência de epidemia na cidade – o que se caracterizaria com uma taxa de incidência superior a 470 casos por 100 000 habitantes; no momento, ela é de 346 por 100 000. Admite que há surtos em 27 bairros, principalmente no Centro e nas zonas Norte e Oeste.

Os verões passam e, enquanto as autoridades de saúde debatem se o mosquito é municipal, estadual ou federal, a dengue, desafortunadamente, se incorporou ao cotidiano da cidade. Ela está presente nas prateleiras das farmácias, onde se vendem repelentes, nas lojas de utilidades domésticas e nos camelôs, que oferecem armadilhas contra o inseto, e até na novela Duas Caras, na qual um dos personagens, morador da favela Portelinha, passou maus bocados com dengue hemorrágica. As dúvidas sobre o mosquito e a doença ainda são muitas. Para ajudar a esclarecê-las, Veja Rio consultou médicos e pesquisadores. As respostas para as trinta perguntas mais freqüentes seguem abaixo.

O especialista em mosquitos

Fotos Fernando Lemos

Num laboratório instalado no Instituto Oswaldo Cruz, às margens da Avenida Brasil, o entomologista Ricardo Lourenço passa os dias estudando o inimigo número 1 da saúde. O Aedes aegypti tem hábitos diurnos, mas é oportunista. Gosta de sombra, água parada e grande concentração populacional. E está ficando cada vez mais difícil de ser combatido pelos inseticidas conhecidos. "Sua resistência aumentou", diz o cientista, que também parece resistente: jamais contraiu a doença.

1 .No início do século XX, o sanitarista Oswaldo Cruz acabou com a febre amarela no Rio de Janeiro. Por que o mosquito voltou?
Oswaldo Cruz criou um Serviço de Profilaxia Específica da Febre Amarela, com brigadas de mata-mosquitos que percorriam a cidade para limpar e lavar caixas d’água, ralos, bueiros, telhados e calhas. Os doentes eram isolados e a notificação dos casos tornou-se obrigatória. Na ocasião, erradicou-se a febre amarela urbana, mas não o mosquito. O Aedes aegypti desapareceu na década de 50 depois de um extenso trabalho coordenado pela Organização Panamericana de Saúde. Um tratado assinado por todos os países filiados previa uma série de medidas, semelhantes às tomadas por Oswaldo Cruz décadas antes, mas alguns deles, como Estados Unidos, Cuba e Venezuela, não fizeram o acompanhamento necessário nos anos seguintes. Como os ovos do mosquito sobrevivem longe da água por até um ano, grudados a superfícies lisas, eles são facilmente transportados. Uma embalagem que saia de uma área contaminada na Venezuela, por exemplo, pode trazer para o Brasil ovos que eclodirão em contato com a água, fazendo surgir larvas.

2. Por que os cientistas e as autoridades de saúde dizem que agora é impossível erradicar o mosquito?
As cidades ficaram mais complexas. Na época de Oswaldo Cruz, a população do Rio era de 700.000 habitantes e participaram da campanha 5.000 pessoas. Atualmente a cidade tem quase 6 milhões de habitantes e o combate precisaria de cerca de 43.000 agentes sanitários. A Secretaria Municipal de Saúde dispõe de apenas 5% desse total (2.220). Para complicar, muitos moradores têm medo de autorizar a entrada dos agentes em sua casa. Além disso, os inseticidas utilizados no passado estão condenados, pois contêm substâncias cancerígenas. O controle do mosquito deixou de ser atribuição federal e passou aos municípios. Na prática, um município pode combater o inseto e seu vizinho não, o que prejudica o trabalho.

3. Por que bairros com alto índice de urbanização, como Botafogo, Tijuca, Urca e Méier, têm incidência tão elevada da doença?
Segundo o entomologista Ricardo Lourenço, do Instituto Oswaldo Cruz, é um mito achar que o mosquito da dengue prefere a proximidade das matas. "Quanto mais concreto e concentração populacional, mais infestada tende a ser a área, especialmente se as condições sanitárias não forem das melhores", diz ele.

4. Quem mora em andar alto está mais seguro do que quem mora em andar baixo?
Teoricamente, sim. Mas o mosquito entra em elevador, voa para andares mais altos e seus ovos podem chegar com as compras do supermercado, por exemplo.

5. A passagem do fumacê nas ruas diminui a infestação?
Em termos. O fumacê só mata os mosquitos adultos. Mesmo assim, seu poder é limitado, pois os insetos desenvolveram resistência aos produtos químicos. Estima-se que mais da metade dos Aedes aegypti já seja resistente. Nos últimos anos, as autoridades sanitárias optaram por utilizar o fumacê apenas em casos extremos, para permitir o aparecimento de uma geração mais vulnerável ao produto. O que se utiliza agora é um inseticida à base de uma bactéria que mata as larvas. Embora seguro para a população, tem efeito por apenas quinze dias.

"As duas semanas mais difíceis"

A atriz Lana Rodes, no ar em Caminhos do Coração, da Record, voltara havia poucos dias de uma viagem à Europa quando sentiu os primeiros sintomas da dengue, no início de março. "Foram as duas semanas mais difíceis da minha vida", relembra. "Sentia dor no corpo todo." Moradora da Barra, não foi a única da casa a contrair a doença – a empregada também caiu de cama. Depois da dengue, novos hábitos foram incorporados à sua rotina, como manter as janelas fechadas durante o dia.

6. Adianta contratar serviços particulares de dedetização para condomínios, vilas e ruas?
Para o entomologista Ricardo Lourenço, não é recomendável. "A aplicação regular colabora no aumento da população de mosquitos resistentes aos inseticidas e pode botar por água abaixo o esforço para aumentar sua susceptibilidade aos produtos", ele afirma.

7. O que fazer se o vizinho deixa que se formem depósitos de água parada em sua casa?
Primeiro, procurar conversar com ele ou acionar o síndico do edifício. Se não adiantar, é possível fazer uma denúncia ao Tele-dengue ( 2575-0007), cujas linhas andam muito congestionadas.

8. Existe algum predador natural do Aedes aegypti?
Sim. Insetos como as aranhas e libélulas. Existem também mosquitos que comem Aedes aegypti, mas todos muito difíceis de ser criados em laboratório.

9. Qual a autonomia de vôo do mosquito? Quanto tempo ele vive? Quantos ovos põe em vida?
As fêmeas vivem até trinta dias; os machos não passam de quinze dias. São elas que propagam o vírus da dengue. Durante sua vida, fazem em média três desovas, produzindo cerca de 500 ovos. O mosquito voa num raio de 100 a 200 metros do lugar onde nasceu.

10. Deixar o ar-condicionado ligado evita que o mosquito entre? O inseto prefere o tempo quente ou frio?
"O ar-condicionado reduz a umidade do ar e dificulta o vôo", explica o virologista Maulori Cabral, do Instituto de Microbiologia da UFRJ. "O metabolismo do mosquito fica mais lento." O inseto evita o sol, por isso é rara sua presença na praia.

Ele perdeu o filho de 8 anos

Pai de Daniel, o menino de 8 anos que morreu vítima da dengue no último dia 9, o funcionário público Paulo Roberto Evaristo, morador de uma vila na Tijuca, vive em pânico. Ele tem outro filho, Eduardo, de 5 anos, e está com medo de que o menino contraia a doença que matou o irmão. "Passo repelente nele, no mínimo, três vezes ao dia", conta. "Ele também está tomando complexo B e permanece sempre de meias." A preocupação tem endereço certo: a caixa-d’água do 1º Batalhão da Polícia do Exército, que fica colada ao quintal de sua casa. O reservatório está cheio de remendos e a tampa, quebrada. "Eles dizem que não têm dinheiro para consertar, mas já me ofereci para pagar o serviço", diz. "Só quero evitar que mais pessoas peguem dengue."

11. É eficiente tomar cápsulas de alho ou de vitamina B12 como repelente?
Em termos. Segundo o chefe da pediatria do hospital Copa d’Or, Arnaldo Prata, só se ingeridas em grande quantidade. Dessa forma, esses produtos deixam um odor forte na pele, o que espanta o mosquito. Para o virologista Maulori Cabral, as vitaminas podem contribuir para tornar o metabolismo mais azeitado e produzir uma levíssima queda na temperatura corporal, tornando a pessoa ligeiramente menos "apetitosa" para o Aedes.

12. É eficiente o uso de velas de andiroba ou citronela e de repelentes encontrados no mercado?
Sim. Os repelentes conferem proteção individual, mas podem ser tóxicos se usados em excesso, principalmente em crianças. As velas de andiroba e citronela têm a propriedade de afastar os mosquitos, mas só funcionam bem em ambientes fechados, sem dispersão. O inseto tem hábitos diurnos, ou seja, não é eficiente usar esses recursos apenas na hora de dormir.

13. É verdade que o mosquito só se reproduz em água limpa?
Em termos. O Aedes aegypti prefere a água limpa, o que não significa água potável. É preciso haver pequena quantidade de matéria orgânica, como folhas, para alimentar as larvas. É raro, mas esse tipo de mosquito já foi encontrado em fossas e valões. A desova não acontece na lâmina d’água. Os ovos ficam presos a uma superfície próxima e, quando o nível sobe, eclodem.

14. Os inseticidas domésticos funcionam ou o inseto já desenvolveu resistência a eles?
Em termos. Eles podem ajudar a controlar uma parte da mosquitada, mas um bom porcentual deles está resistente.

15. Por que não se deve tomar aspirina em tempos de dengue?
Porque ela diminui a função das plaquetas, que é bloquear hemorragias. Se a pessoa estiver com dengue, a medicação aumentará o risco de sangramentos.

Inseticida três vezes por semana

São 300 000 metros quadrados de jardins caprichosamente cuidados. Por estar em Vargem Grande, zona de surto, a casa de eventos Lajedo aprendeu a conviver com a insegurança dos clientes. "As pessoas se tranqüilizam quando são informadas de que aplicamos inseticida três vezes por semana", diz a diretora superintendente, Mônica Medeiros, que só com isso gasta 1 700 reais mensais. Mesmo assim, o passeio de confraternização dos alunos de uma escola do Centro, previsto para este mês, foi cancelado.

16. Quais são os primeiros sinais da doença? É possível estar com a infecção e não sentir nenhum sintoma? Quanto tempo de repouso é necessário para se recuperar?
Febre alta (por volta de 39 a 40 graus); dores de cabeça (principalmente na área dos olhos), de garganta, na barriga e muscular; fraqueza, náusea, vômito e diarréia. Segundo o pediatra Arnaldo Prata, um sexto dos casos não apresenta nenhum sinal. Outros tantos ficam sem diagnóstico porque seus sintomas não se diferenciam dos de uma gripe comum. Durante a doença é recomendável repouso (em torno de catorze dias). Nas formas mais graves, quando há queda na quantidade de plaquetas e sangramentos, o descanso deve se estender por mais uma semana depois da alta.

17. O que indica que um caso é de dengue hemorrágica?
A forma hemorrágica começa como a dengue clássica, mas, de um momento para o outro, sem que seja possível prever, há uma piora no estado geral. Para ser classificada assim, precisa apresentar quatro condições: quadro agudo febril; manifestações hemorrágicas que variam de alterações nos exames de coagulação a manchas na pele, sangramento gengival e nasal; índice de plaquetas baixo; e evidências de saída de plasma do interior dos vasos com derrame de líquido para o abdômen, a pleura ou a área em volta do coração. Se não for tratado de imediato, o doente pode morrer em poucas horas.

18. Há um só tipo de vírus atingindo os cariocas ou mais de um? Qual o tipo preponderante? Algum deles é mais forte do que o outro?
A primeira grande epidemia, em 1986, foi do vírus tipo 1. Em 1991, quando aconteceram 52 .231 casos, foi do tipo 2. Em 2002, 140.408 cariocas foram contaminados pelo tipo 3. Há um quarto tipo de vírus, que ainda não foi isolado no país. No Rio predomina o tipo 3, que veio da Ásia e é mais agressivo que os demais, mas qualquer um deles pode levar à morte.

19. Por que crianças e adolescentes têm contraído mais a doença agora do que em outras temporadas?

A partir das décadas de 70 e 80, constatou-se na Ásia um aumento progressivo no número de casos de dengue em menores de 15 anos. "Era esperado que isso ocorresse também nas Américas", diz o virologista Hermann Schatzmayr, do Instituto Oswaldo Cruz. Especula-se que com a grande circulação de vírus e de pessoas infectadas forma-se uma forte imunidade em grande parte da população adulta. Os jovens e as crianças passam a ser os mais suscetíveis.

20. Quantas vezes é possível ter dengue?
Em tese, é possível ter uma infecção para cada tipo de vírus. Até hoje, no mundo, foram identificadas quatro variedades, mas o tipo 4 ainda não foi encontrado no Brasil.

Na primeira vez, dengue hemorrágica

Superintendente do Instituto de Patrimônio Histórico no Rio e morador de Botafogo, o arquiteto Carlos Fernando Andrade descobriu da pior maneira que a primeira dengue não é necessariamente branda. Com febre alta, dores no corpo e muito cansaço, ele procurou o hospital. Acabou internado por uma semana. "Nunca tinha tido e fui diagnosticado com a dengue hemorrágica", conta.

21. É verdade que quem já teve dengue terá o tipo hemorrágico se ficar doente de novo?
Há indicações de que infecções anteriores são um fator importante para a formação de quadros mais graves, mas muitas pessoas têm sucessivas infecções sem desenvolver o tipo hemorrágico. O virologista Hermann Schatzmayr conta que, em Cuba, uma grande epidemia do tipo 1, em 1976, foi aparentemente responsável por outra ainda mais grave quatro anos depois, quando o tipo 2 entrou na ilha, causando a morte de 150 pessoas. No Rio houve uma grande epidemia do tipo 1 em 1986, seguida pela entrada do tipo 2 quatro anos mais tarde, quando apareceram os primeiros casos fatais da doença.

22. A dengue hemorrágica é resultado de uma fraqueza do sistema imunológico do doente? Há algum componente genético em seu aparecimento?
As razões pelas quais algumas pessoas desenvolvem a dengue hemorrágica não são bem conhecidas. Fatores genéticos individuais, aparentemente, têm alguma influência. "A virulência das amostras é um dado importante", diz Hermann Schatzmayr. "Na epidemia do Rio de Janeiro em 2002, a grande maioria dos casos fatais aconteceu com pessoas que nunca haviam tido a doença." Segundo o virologista, o primeiro a isolar os três tipos de vírus da dengue no país, a amostra do tipo 3 continua bastante virulenta.

23. Mulheres grávidas correm o risco de passar a doença para os bebês?
Não. São raríssimos os casos conhecidos de transmissão placentária. Segundo o pediatra Arnaldo Prata, a maioria das gestantes que contrai dengue não tem um risco maior de parto prematuro, aborto ou outros problemas.

24. Que exames devem ser feitos quando se suspeita da doença e quanto tempo leva para que eles confirmem (ou não) a contaminação?
Existem dois tipos de exame. O mais usado é a sorologia para dengue, que deve ser feita apenas após o sétimo dia da doença, porque até então pode indicar um falso resultado negativo. Mais caro e menos disponível é o PCR (reação em cadeia da polimerase), capaz de identificar com precisão a presença do vírus nos primeiros cinco dias.

25. Todas as pessoas infectadas pelo vírus contraem a doença?
Não. Segundo a infectologista Patrícia Brasil, do Instituto de Pesquisas Clínicas Evandro Chagas, estudos mostram que, de cada dez pessoas infectadas, quatro podem não apresentar sintomas.

 

26. É possível saber se houve contato com o vírus, mesmo que a doença não tenha se desenvolvido?
Sim, através do exame de sorologia. Podem ser dosados dois tipos de anticorpo: IgM, presente nos casos recentes, e IgG, que aparece se o indivíduo já tiver tido contato com alguma cepa do vírus, mesmo sem ter apresentado sintomas.

27. Por que a doença está se comportando de forma mais letal nesse surto?
Os tipos 2 e 3, em circulação no Rio, são dos mais virulentos. "A letalidade de qualquer doença infecciosa depende da virulência do microrganismo e da susceptibilidade do paciente", explica a infectologista Patrícia Brasil. "O diagnóstico clínico rápido e o tratamento reduzem significativamente a letalidade", afirma Patrícia, que garante que não é preciso ter o resultado positivo dos exames para começar a medicação.

28. Como deve ser o tratamento médico?
O pediatra Arnaldo Prata ressalta que é importantíssimo manter o paciente bem hidratado, medida capaz de mudar o rumo da doença. Como toda virose, segundo o professor Maulori Cabral, a cura é espontânea. "Nas viroses, quando as pessoas adoecem é porque estão reagindo para voltar a ficar boas. É preciso tomar muito cuidado para não contrariar o mecanismo fisiológico da recuperação", explica ele.

29. Existe perspectiva de criar uma vacina contra a dengue?
A Fundação Oswaldo Cruz pesquisa há oito anos uma vacina que imunize a população, mas os resultados ainda devem demorar a chegar até o público.

30. Quem for picado por um mosquito contaminado pela dengue pode passar a doença adiante se for picado novamente?
De acordo com o virologista Maulori Cabral, a doença só é transmitida nas primeiras etapas da febre e prostração. "A fase da prostração é a mais contagiosa, pois a pessoa debilitada está com a maior concentração de vírus no sangue", explica. Com a temperatura corporal mais elevada, os doentes exercem grande atração sobre os mosquitos.

 

   
   
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